Adoçantes sem ou de baixas calorias e a saúde cardiometabólica: Em que pé se encontram as provas?

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Notícias científicas do 7.º Congresso Internacional de Nutrição do Dubai (DINC) 2021  

Destaques:

  • Para avaliar os benefícios dos adoçantes sem ou de baixas calorias, a investigação deve examinar o seu impacto em conformidade com o fim a que se destinam, ou seja, quando utilizados como substitutos do açúcar e, portanto, para ajudar a alcançar a redução calórica.
  • As análises dos dados coletivos que examinam a substituição de bebidas açucaradas por bebidas que contêm adoçantes sem ou de baixas calorias mostram benefícios nos resultados de peso e nos fatores de risco cardiometabólico.
  • A investigação emergente indica também potenciais benefícios na redução da gordura hepática, quando são utilizadas alternativas com baixo teor calórico em vez de refrigerantes açucarados.

 

O 7Congresso Internacional de Nutrição do Dubai (DINC) 2021, realizado entre 4 e 6 de novembro de 2021, proporcionou uma plataforma para especialistas em nutrição e alimentação nos países do Médio Oriente e não só para discutir os recentes avanços e orientações no domínio da nutrição, com o objetivo de facilitar a prática baseada em evidências e recomendações de políticas públicas na região. Uma vez que o tema do açúcar e dos edulcorantes é sempre importante neste contexto, uma palestra sobre os adoçantes sem ou de baixas calorias e a saúde cardiometabólica integrou o programa científico do congresso. O Dr. John Sievenpiper, MD, PhD, FRCPC, Universidade de Toronto, Canadá, explicou porque é que existem relatórios contraditórios sobre o papel dos adoçantes sem ou de baixas calorias na alimentação e apresentou dados de novos estudos que examinam o impacto na saúde da substituição de bebidas açucaradas por alternativas com adoçantes sem ou de baixas calorias.

As autoridades e organizações de saúde pública a nível mundial, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam uma redução do consumo excessivo de açúcares para todos os grupos populacionais. Esta recomendação levou a um aumento do interesse científico para as alternativas ao açúcar, tais como os adoçantes sem ou de baixas calorias. Ao mesmo tempo, posições contraditórias na ciência e nos meios de comunicação social sobre o impacto dos edulcorantes na saúde levantaram questões entre os consumidores sobre o seu papel benéfico na substituição do açúcar na alimentação. A diferente interpretação da literatura atual por variados peritos científicos alimentou a confusão que precisa de ser abordada através de uma investigação cuidadosamente desenhada.

Como avaliar e interpretar com precisão as evidências disponiveis

Para avaliar os potenciais benefícios dos adoçantes sem ou de baixas calorias, a hipótese de investigação deve ser clara e procurar examinar a sua finalidade de utilização, ou seja, reduzir as calorias através da substituição do consumo excessivo de açúcares. Quando a comparação é feita com placebo ou água, e, portanto, sem eliminação calórica, nenhum efeito benéfico (ou adverso) deve ser esperado. É, portanto, importante esclarecer na hipótese de estudo com o que é que os edulcorantes são comparados.

Do mesmo modo, as revisões sistemáticas e meta-análises que reúnem comparadores calóricos (por exemplo, açúcar) e não calóricos (por exemplo, água) não examinam uma hipótese clara e, portanto, produzem resultados muito diferenciados que são difíceis de interpretar.1 Os adoçantes sem ou de baixas calorias não possuem propriedades mágicas, e os seus benefícios dependem do nível de redução calórica alcançada através da redução do açúcar (e, portanto, das calorias) na alimentação.

Analisar as provas colectivas de estudos em humanos

Foram apresentados no Congresso os resultados de duas meta-análises, com o objetivo de colmatar a lacuna de provas sobre o impacto da substituição de bebidas açucaradas por bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias.

Uma meta-análise em rede de 14 ensaios controlados e aleatorizados (RCT) concluiu que com a substituição pretendida do açúcar por edulcorantes, ou seja, quando se consegue uma redução calórica, houve um benefício na diminuição do peso corporal e da gordura corporal, bem como benefícios cardiometabólicos, tais como uma redução da gordura hepática. Quando a comparação foi feita com água, as bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias tiveram um efeito neutro. A vantagem das meta-análises em rede é que esta forma de análise alavanca todas as comparações diretas disponíveis, ou seja, adoçantes vs. açúcar, e indiretas, ou seja, água vs. açúcar e água vs. adoçantes.2

Outra meta-análise de 12 estudos de coorte prospectivos mostrou que a substituição de bebidas açucaradas por bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias está associada a reduções no peso corporal, perímetro abdominal, incidência de doenças coronárias, mortalidade por doenças cardiovasculares, e de mortalidade por todas as causas. Embora fornecendo provas de menor qualidade devido à natureza observacional dos estudos incluídos, estes resultados estão de acordo com as meta-análises dos RCT que indicam um benefício desta substituição e nenhuma prova de efeitos adversos.3

Investigação emergente sobre o papel dos adoçantes sem ou de baixas calorias na saúde metabólica

Atualmente, estão em curso vários estudos que examinam o impacto dos adoçantes sem ou de baixas calorias na saúde cardiometabólica. Além disso, estão em curso novos ensaios clínicos sobre o impacto dos edulcorantes na microbiota intestinal humana, incluindo um ensaio conduzido pelo Dr. Sievenpiper, chamado “Strategies To OPpose SUGARS with Non-nutritive sweeteners Or Water trial”.4 Trata-se de um RCT cruzado que estuda o efeito da substituição de bebidas açucaradas por bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias ou água na tolerância à glicose, diversidade microbiológica intestinal, e outros resultados cardiometabólicos, ao longo de 4 semanas em indivíduos em risco / com excesso de peso ou obesidade. Dados preliminares de um subconjunto de 32 participantes, olhando especificamente para a gordura hepática, mostraram que a substituição de bebidas açucaradas por bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias ou água reduz a gordura hepática, confirmando o benefício pretendido desta substituição.

Mensagem final

Na sua intervenção, o Dr. Sievenpiper concluiu que, para compreender se e em que condições a utilização de adoçantes sem ou de baixas calorias poderia ter potenciais benefícios cardiometabólicos, devemos olhar para as provas colectivas que avaliam o objetivo pretendido da utilização de adoçantes sem ou de baixas calorias. Embora existam preocupações de que os edulcorantes possam não ter os benefícios pretendidos, as evidências atuais apoiam a afirmação de que a substituição pretendida de calorias provenientes do açúcar por adoçantes sem ou de baixas calorias pode ajudar a melhorar o controlo do peso corporal e os fatores de risco cardiometabólico associados.

  1. Sievenpiper JL, Khan TA, Ha V, Viguiliouk E, Auyeung R. The importance of study design in the assessment of nonnutritive sweeteners and cardiometabolic health. CMAJ. 2017; 189: E1424–E1425.
  2. McGlynn et al, submitted. Network Meta-analyses of Artificially Sweetened Beverages and Cardiometabolic Risk. ClinicalTrials.gov Identifier: NCT02879500
  3. Lee et al, under review. Meta-analysis of Low-calorie Sweetened Beverages and Cardiometabolic Outcomes. ClinicalTrials.gov Identifier: NCT04245826
  4. Sievenpiper J. Strategies To OPpose SUGARS with Non-nutritive sweeteners Or Water trial. ClinicalTrials.gov Identifier: NCT03543644