Bebidas adoçadas com adoçantes sem ou de baixas calorias e alteração do peso: resultados de três grandes estudos de coorte prospetivos com 30 anos de seguimento

Destaques:

  • A análise de três grandes coortes prospetivas sugere que substituir bebidas açucaradas por bebidas “diet” ou por água pode ajudar a limitar o aumento de peso a longo prazo.
  • Um maior consumo destas bebidas não esteve associado ao aumento de peso, mas sim a um ligeiro menor ganho ponderal ao longo do tempo.
  • Os resultados estão alinhados com evidência de ensaios clínicos aleatorizados, que mostram que a substituição de bebidas açucaradas por alternativas com menos ou sem calorias pode reduzir modestamente a ingestão energética e o peso corporal.

As bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias, como os refrigerantes “diet”, são amplamente consumidas como alternativa às bebidas açucaradas. No entanto, o seu papel na gestão do peso tem sido debatido devido a evidência contraditória e inconsistente.

Os ensaios clínicos aleatorizados controlados (ECAs) mostram, em geral, reduções pequenas mas consistentes no peso corporal quando os açúcares são substituídos por adoçantes sem ou de baixas calorias. Em contraste, os estudos observacionais apresentam resultados mistos: alguns sugerem associações com aumento de peso, enquanto outros apontam para efeitos neutros ou até protetores. Estas discrepâncias podem dever-se, em parte, a limitações metodológicas, como a causalidade inversa.1

Uma análise recente de três grandes estudos de coorte prospetivos dos Estados Unidos, com medições repetidas da alimentação e do peso, vem trazer nova evidência sobre a relação entre alterações no consumo de bebidas e a evolução do peso a longo prazo.2

O que analisou o novo estudo

Os investigadores avaliaram de que forma as alterações no consumo de bebidas com adoçantes sem ou de baixas calorias, bebidas açucaradas (BA) e água se associavam a mudanças no peso corporal e no índice de massa corporal (IMC).

O estudo analisou dados de três grandes estudos de coorte prospetivos dos EUA: o Nurses’ Health Study, o Nurses’ Health Study II e o Health Professionals Follow-up Study. Foram acompanhados 143.409 adultos com idades entre os 26 e os 65 anos durante 24 a 32 anos, com recolha repetida de informação sobre alimentação, estilo de vida e peso corporal. Ao acompanhar as alterações individuais no consumo de bebidas e no peso a cada quatro anos, os investigadores procuraram obter uma imagem mais realista da evolução do peso a longo prazo do que estudos baseados apenas em hábitos iniciais.

Principais resultados

De um modo geral, as pessoas tendem a ganhar peso ao longo do tempo. Em média, os participantes ganharam 1,3 kg a cada quatro anos. Contudo, o aumento do consumo de bebidas adoçadas com adoçantes sem ou de baixas calorias esteve associado a um menor ganho de peso ao longo do tempo. Em concreto, o aumento do consumo de bebidas “diet” em três porções por semana foi associado a uma alteração líquida do peso de cerca de -0,18 kg ao longo de um período de quatro anos. Padrões semelhantes foram observados para o IMC. A análise de mediação mostrou que esta associação era parcialmente explicada pela redução da ingestão energética proveniente das bebidas açucaradas.

Quando os participantes substituíram bebidas açucaradas por bebidas “diet” ou por água, a associação com a alteração do peso foi substancialmente maior. A substituição de três porções semanais de bebidas açucaradas por uma quantidade equivalente de bebidas adoçadas com adoçantes sem ou de baixas calorias esteve associada a menos 1,39 kg de ganho de peso ao longo de quatro anos. Um efeito semelhante foi observado quando as bebidas açucaradas foram substituídas por água, enquanto a substituição de bebidas adoçadas com adoçantes sem ou de baixas calorias por água esteve associada a um ligeiro efeito favorável, embora a diferença tenha sido pequena. No geral, os resultados demonstraram que a redução do consumo de bebidas açucaradas foi um fator determinante, independentemente de a substituição ter sido feita por bebidas “diet” ou por água.

As associações foram mais fortes entre pessoas com excesso de peso ou obesidade e entre aquelas com maior consumo de bebidas açucaradas, sugerindo que a substituição de bebidas açucaradas por bebidas “diet” ou por água pode ser particularmente benéfica para indivíduos com maior risco de aumento de peso e para consumidores elevados de bebidas açucaradas.

Porque é que estes resultados são importantes

A redução do consumo excessivo de açúcar é uma prioridade de saúde pública. Identificar alternativas viáveis e aceitáveis para a população é, por isso, essencial.

Este estudo sugere que as bebidas “diet” podem funcionar como uma estratégia de transição útil para reduzir o consumo de bebidas açucaradas. Embora as diferenças de peso associadas apenas ao aumento do consumo de bebidas “diet” tenham sido pequenas, a substituição de bebidas açucaradas por bebidas “diet” esteve associada a reduções significativas do ganho de peso, sobretudo em indivíduos com excesso de peso ou obesidade.2

Contextualização dos resultados

Os resultados obtidos por Espinosa e colegas são particularmente relevantes no contexto das discussões atuais sobre orientações alimentares, incluindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre adoçantes sem ou de baixas calorias.3 A OMS salientou, na sua orientação, a importância de estudos que incluam avaliações múltiplas e sequenciais da exposição, que tenham em conta padrões de consumo variáveis e que reduzam a suscetibilidade à causalidade inversa.

Ao analisar alterações no consumo ao longo do tempo, em vez de apenas a ingestão inicial, Espinosa et al. procuram ultrapassar algumas destas limitações. Os resultados refutam a alegação de que as bebidas “diet” estejam associadas ao aumento de peso, sendo mais consistentes com a evidência proveniente de ensaios clínicos aleatorizados controlados (ECAs), que indica que substituir bebidas açucaradas por alternativas adoçadas com adoçantes sem ou de baixas calorias pode ajudar a reduzir a ingestão calórica e apoiar o controlo do peso.²

Este novo estudo baseia-se também numa revisão “umbrella” recente de meta-análises de ECAs e de estudos de coorte prospetivos, que evidenciou uma divisão metodológica significativa: enquanto análises simples de estudos de coorte com avaliação da exposição basal tendem a associar os adoçantes sem ou de baixas calorias a um risco aumentado de obesidade, diabetes e doença cardiovascular, as análises ajustadas para viés mostraram o contrário.⁴

Mensagem-chave

O estudo mostra que substituir bebidas açucaradas por bebidas “diet” ou por água esteve associado a um menor ganho de peso ao longo do tempo. Embora as bebidas “diet” dificilmente constituam uma solução isolada para a gestão do peso, podem representar uma alternativa prática para pessoas que procuram reduzir a sua ingestão de açúcar.

  1. Bellisle F. Low- or No-Energy Sweeteners and Body Weight Management: Dissecting a “Minor” Effect. Obes Rev. 2025 Sep;26(9):e13937. https://doi.org/10.1111/obr.13937
  2. Espinosa A, Pacheco LS, Wan Y, Sun Q, Hu FB, Tobias DK, Willett WC, Mattei J. Artificially Sweetened Beverages and Weight Change: Findings from Three Prospective Cohort Studies of U.S. Adults. Am J Clin Nutr. 2026 Mar 5:101261. https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2026.101261
  3. World Health Organization (WHO). Use of non-sugar sweeteners. WHO guideline. World Health Organization. 2023. https://www.who.int/publications/i/item/9789240073616
  4. Ayoub-Charette S, Kavanagh M, Khan T, Sievenpiper J. Reconciling conflicting evidence on low- and no-calorie sweeteners and cardiometabolic outcomes: an umbrella review using naïve and bias-adjusted methods. Appl Physiol Nutr Metab. 2025 Jan 1;50:1-26. https://doi.org/10.1139/apnm-2025-0068
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