O que os profissionais de saúde devem saber sobre o efeito dos adoçantes de baixas calorias no controlo da glicemia


Posted: 10 agosto 2017

Revisão dos últimos dados científicos


Destaques:

  • Os adoçantes de baixas calorias não afetam a glicemia ou os níveis de insulina no sangue.
  • Utilizar adoçantes de baixas calorias em substituição do açúcar e como parte de uma dieta e de um estilo de vida saudáveis pode ser uma estratégia útil para as pessoas com diabetes ou obesidade para quem o controlo da glicemia e de peso são fundamentais.
  • Esta informação é especialmente importante para os profissionais de saúde, que procuram factos fundamentados em evidências sobre a utilização de adoçantes de baixas calorias como meio para reduzir a ingestão de açúcar, incluindo na dieta de pessoas com diabetes.

Há já várias décadas que os adoçantes de baixas calorias foram apresentados como uma alternativa de sabor doce ao açúcar na dieta de pessoas com diabetes porque não têm nenhum efeito nos níveis de glicose no sangue ou na secreção de insulina.1 Isto não é uma surpresa e está em linha com o facto de que os adoçantes de baixas calorias não, ou praticamente não contribuem, com calorias nem com hidratos de carbono para a alimentação. No entanto, apesar do grande número de evidências que sustentam que os adoçantes de baixas calorias não têm impacto no controlo da glicemia, as notícias divulgadas pelos meios de comunicação social estão ainda a lançar dúvidas sobre o seu papel na alimentação de pessoas com diabetes.

Qual é a posição dos reguladores e organizações científicas internacionais?

Nas suas mais recentes recomendações de Terapia Nutricional Médica, a Associação Americana de Diabetes (ADA) sustenta que “os adoçantes não nutritivos têm o potencial de reduzir a ingestão geral de calorias e de hidratos de carbono se forem utilizados como substitutos dos adoçantes calóricos e sem que haja qualquer compensação pela ingestão de calorias adicionais de outras fontes alimentares”.2
Além do mais, em 2011, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) aprovou uma alegação nutricional e de saúde que afirma que “o consumo de alimentos ou bebidas contendo adoçantes de baixas calorias em vez de açúcar induz um menor aumento da glicose no sangue após o seu consumo em comparação com alimentos ou bebidas contendo açúcares”.3

Então, como é possível que os seus efeitos benéficos tenham sido questionados nos últimos anos?

Ensaios em seres humanos vs. estudos realizados de forma isolada em animais e in vitro

Alguns estudos publicados na década passada levaram à criação de teorias que sustentam que os adoçantes de baixas calorias podem afetar negativamente o metabolismo da glicose através de efeitos na secreção de insulina e / ou na libertação de incretina (GLP-1 e GIP). A hipótese resulta em grande parte de estudos em células ou tecidos isolados, sugerindo potenciais efeitos dos adoçantes de baixas calorias nos recetores intestinais que detetam o gosto doce ou, mais recentemente, de estudos em animais que sustentam um impacto na microbiota intestinal.4

No entanto, estes efeitos não foram demonstrados em seres humanos e, contrariamente a estas teorias, um forte conjunto de evidências de ensaios clínicos controlados e aleatorizados - o desenho de estudo mais robusto na ciência da nutrição humana - mostram claramente que os adoçantes de baixas calorias não afetam a glicose pós-prandial no sangue ou os níveis de insulina no sangue, nem afetam o controlo glicémico a longo prazo. Na verdade, a maioria dos ensaios clínicos que investigam o potencial dos adoçantes de baixas calorias em afetar o controlo da glicose no sangue por alteração das respostas hormonais intestinais não apresentam efeitos clinicamente significativos nos níveis circulantes de hormonas incretinas.4,5,6

O ensaio clínico de longo prazo recentemente publicado que ajuda a responder se o consumo de sucralose, adoçante de baixas calorias, seria suscetível de influenciar o controlo glicémico.
Ao investigar o efeito da ingestão diária da sucralose em níveis próximos da DDA durante 12 semanas em 47 voluntários saudáveis do sexo masculino, um ensaio clínico controlado e aleatorizado realizado por Grotz et al.6 concluiu que não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de sucralose e do placebo em jejum ou na glicose pós-prandial, no controlo de glicemia a longo prazo (HbA1c) ou na homeostase da insulina.

Estes resultados são também consistentes com um estudo de 3 meses realizado em pessoas com diabetes tipo 2 que não encontrou efeitos nos níveis de HbA1c, uma medida do controlo de glicemia a longo prazo, bem como com os vários ensaios clínicos controlados e aleatorizados de curto prazo que não mostram nenhum impacto da sucralose no controlo da glicose no sangue.6,7

Esta publicação mais recente de Grotz et al. baseia-se na evidência atual de que o consumo diário repetido a longo prazo de adoçantes de baixas calorias não afetaria negativamente o controlo da glicose no sangue, e isto, é especialmente importante para os profissionais de saúde, que procuram factos fundamentados em evidências sobre a utilização de adoçantes de baixas calorias como meio para reduzir a ingestão de açúcar, incluindo na dieta de pessoas com diabetes.

Mensagem a reter

Num momento em que a obesidade e a diabetes estão a crescer globalmente, os adoçantes de baixas calorias podem oferecer uma alternativa de sabor doce sem ou de baixas calorias, ajudando as pessoas com diabetes ou indivíduos preocupados em gerir o seu peso corporal a reduzir a ingestão de açúcar e calorias. Especialmente para as pessoas com diabetes, os adoçantes de baixas calorias oferecem escolhas alimentares mais amplas, proporcionando o prazer do sabor doce sem aumentar os níveis de açúcar no sangue.

References

  1. Evert AB, Boucher JL, Cypress M, et al. Nutrition therapy recommendations for the management of adults with diabetes. Diabetes Care. 2014; 37(Suppl.1): S120–S143
  2. American Diabetes Association® 2017 Standards of Medical Care in Diabetes: 4. Lifestyle management. Diabetes Care 2017 Jan; 40(Supplement 1): S33-S43
  3. EFSA NDA (EFSA Panel on Dietetic Products Nutrition and Allergies). Scientific opinion on the substantiation of health claims related to intense sweeteners and contribution to the maintenance or achievement of a normal body weight (ID 1136, 1444, 4299), reduction of post-prandial glycaemic responses (ID 4298), maintenance of normal blood glucose concentrations (ID 1221, 4298), and maintenance of tooth mineralisation by decreasing tooth demineralisation (ID 1134, 1167, 1283) pursuant to Article 13(1) of Regulation (EC) No 1924/2006. EFSA 2011 Journal 9: 2229
  1. Romo-Romo et al. Non-nutritive sweeteners: Evidence on their association with metabolic diseases and potential effects on glucose metabolism and appetite. Rev Inves Clin 2017; 69: 129-38
  2. Romo-Romo A, Aguilar-Salinas CA, Brito-Cordova GX, et al. Effects of the non-nutritive sweeteners on glucose metabolism and appetite regulating hormones: Systematic review of observational prospective studies and clinical trials. Plos One 2016; 11(8): e0161264
  3. Grotz LV., Pi-Sunyer X., Porte Jr. D., Roberts A. Trout R. A 12-week randomized clinical trial investigating the potential for sucralose to affect glucose homeostasis. Regulatory Toxicology and Pharmacology 2017; 88: 22-33
  4. Grotz, V.L., Henry, R.R., McGill, J.B., et al. Lack of effect of sucralose on glucose homeostasis in subjects with type 2 diabetes. J. Am. Diet. Assoc. 2003; 103 (12): 1607-1612.